Há quem tenha a opinião de que “homens e moda” não seja assunto relevante e que discussões de representações de masculinidades ou como são as imagens dos brasileiros não altera em nada a nossa sociedade. Os primeiros fatos marcantes do jovem ano de 2019 aqui no Brasil questionam quem pensa assim: foram os discursos retrógrados e as imagens dos políticos os temas mais importantes na rede social demonstrando o quanto a Moda não mente: quem vê “cara” vê sim coração e tudo mais.

A declaração de “Menino veste azul e Menina veste rosa” já foi o abre-alas do bloco ultraconservador que assumiu o Poder.  As fotos de deputados e senadores nas cerimônias de posse demonstram como os políticos expõem suas imagens: “fantasiados” com horríveis ternos apontam o esculacho como “tendência da moda masculina” no Planalto Central. Na verdade o costume (paletó + calça+ camisa + gravata) apareceu como sinal de superioridade dos patrões quando a plebe teve que assumir os macacões das fábricas. O paletó, herança do casaco militar, ajuda em muito a criação de uma imagem de homem forte: alarga o peito e dá mais volume no ombro, funcionando como uma espécie de armadura dos cavaleiros medievais. O “Terno”, nesse século XXI ainda é sinal de distinção, como se seu uso impusesse respeito. Mesmo o operário tinha seu terno de casamento, que antes da ascensão da moda “pronta para usar” ( “ready to wear” ou “pret-à-porter”) com certeza era o mesmo do seu enterro.  A indústria logo tratou de criar opções por preços muito baixos   para aqueles que não têm dinheiro para pagar um alfaiate. O consumo do terno se estendeu dos Homens do Escritório para os Seguranças e Fiéis de Igrejas, mesmo nos Sertões Nordestinos. Como não se consegue milagres na indústria, ternos baratos não vestem bem: ficam maiores no ombro ou nas mangas, largos demais no braço ou no corpo e os resultados estão mais para Programas de Humor do que para Palanques. 

Os filhos nunca foram incentivados a prestarem atenção à moda e ainda é comum ouvir um homem dizer: “Quem sempre comprou minhas roupas foram mulheres: minha mãe, minha mulher, minha filha…” Um fomentado desinteresse pode no fundo encobrir o medo de não cumprir a risca as exigências de comportamento de “macho”  onde assuntos ligados à estética não fazem parte do pacote.

A verdade é que durante muito tempo foi comum uma mulher elegante andar ao lado de um homem desleixado. O assunto da aparência pessoal também não era valor almejado pelas Companhias. Até pouco tempo a imagem de um homem de verdade era grosseira, sem cor, sem adorno, sem cuidados. Hoje o que era padrão deixou de dominar todos os homens brasileiros: sejam por suas mulheres, pelos seus empregos, ou por eles mesmos.

Mas ainda hoje, muitos homens não tem espelho em casa, entristeço em pensar que eles sejam a maioria no mundo. Vestem-se  com uniformes da grande “Irmandade dos Homens” que anulam o interesse pela vaidade, pela delicadeza, pela inovação. Poderíamos justificar que a maioria com salários achatados e muitas bocas para sustentar não poderiam gastam com a moda. Mas, se boa parte das famílias são sustentadas por mulheres que descobrem algum tempo e dinheiro para melhorar suas aparências, vemos que a questão é o machismo.  É muito séria a obediência às normas restritivas aos “uniformes” e principalmente o total desleixo e brutalidade dos seus gestos.

Na última semana uma foto ganhou atenção nas mídias: em pose oficial com seus aliados, o presidente se apresentou de calça de abrigo esportivo, sandália de borracha, camiseta de futebol e paletó. Num primeiro momento poderíamos pensar que é mais um dos exemplos de reafirmação do machismo, mas o próprio descaso com a imagem é uma atitude de moda e política.  A imagem de um líder é repleta de significados porque além de um lugar de posição individual, fala sobre a essência e os ideais do sujeito. Mais que um militar da reserva, a imagem escolhida quer retratar um homem “comum” que seguindo os padrões não liga para a moda: prefere estar sempre relaxado, com a roupa de jogar futebol para ficar no sofá assistindo TV. Para colar ainda mais com o esporte mais importante e machista no país, o presidente nesse traje “estou na minha casa” ou “quem manda aqui sou eu, me visto como quiser” , posa com sua equipe como um time com todos os “ jogadores” de braços cruzados.

A preocupação com o rigor da moda, em diversas circunstâncias e ocasiões, é tão imutável que gerou uma série de regras dentro de  um “código de vestir” ou “dress code”. O mercado financeiro, as áreas jurídicas e a própria política sempre foram ambientes em que os “códigos de vestir” foram rigorosamente obedecidos. Nos quartéis ou nos encontros com Chefes de Estado o rigor é tão grave ou maior. Então quem rompe com esses códigos sabe muito bem o que está fazendo.

Na sequência o mesmo presidente aparece numa reunião usando uma camiseta de futebol – agora sem terno – como um “chefe de família no almoço de domingo”. A mensagem é que o país agora tem um presidente como todo cidadão comum e “honrado” que não abre mão da larga camisa do seu clube e de um chinelo e que “não está nem aí” para as exigências dos trajes de um político. A mensagem o descola dos outros políticos: um homem “chefe de família”, como outro qualquer, melhorando os destinos do país.

Como atores criando seus personagens, muitos homens frente ao espelho fabricam imagens de quem rejeita a moda, mas na verdade têm uma “despretensão” calculada: alguns por temem ser rejeitados pelos colegas, outros precisam fazer com que seus seguidores pensem que são ogros como eles.

Concordamos que somos diferentes. Antes de entender quem “você é”, já aprendeu o que “você não é”. Antes dos corpos: os gestos, antes de aprender a diferença do seu corpo e o da sua coleguinha, saberá que ela pode chorar, rebolar, se enfeitar… mas você não.